Projeto Carnaúba Viva gera trabalho e renda

14 abril 2016

Carnauba Viva_projeto400 artesãs de quatro municípios do RN e CE são fornecedoras de esteiras, tranças e grades feitas da palha e talos da carnaúba.

A palha da carnaúba, abundante no Nordeste, outrora usada como embalagem de rapaduras e fardos de carne, hoje é preciosa matéria-prima para 400 artesãs do Vale do Açu, no Rio Grande do Norte, entre elas, Maria da Conceição da Silva. “A carnaúba é tudo para nós. Dela a gente faz artesanato e muitas famílias vivem disso”, conta.

Da palmeira, originou-se o trabalho da organização não-governamental, sediada no município de Assu (RN), projeto e cooperativa, denominados Carnaúba Viva, dos quais a artesã é integrante.

Por meio do Projeto Carnaúba Viva, artesãs como Conceição, moradoras de assentamentos rurais de oito municípios dessa microrregião do semi-árido, localizada a 208 quilômetros de Natal, tornaram-se fornecedoras da unidade de produção Alto do Rodrigues da Petrobras no Rio Grande do Norte.

Trata-se de um caso de inserção inédita da produção artesanal na rica cadeia produtiva de petróleo e gás, que está gerando a inclusão socioeconômica de cerca de duas mil pessoas na região. Até o momento, elas já forneceram 59 mil esteiras ou cerca de 80 quilômetros de esteiras e tranças da palha da carnaúba à Petrobras.

Desde o início do projeto, a unidade do Sebrae no Rio Grande do Norte apóia o Carnaúba Viva. Várias capacitações foram realizadas nas localidades envolvidas no projeto. Oficinas de multiplicação da técnica de tecer as esteiras e cintas da palha de carnaúba foram ministradas pelas artesãs-mestres em diferentes localidades. “Pessoas antes excluídas do mercado, hoje se vêem como empreendedoras e fazem negócios com a Petrobras”, comenta Fernando Sá Leitão, gerente do Sebrae em Assu (RN).

Da casa

“Esse projeto representa muita coisa para nós. Nossa necessidade era pesada”, afirma Raimundo Mariano, agricultor aposentado e marido de Antônia Rita da Silva, supervisora de qualidade da produção do Carnaúba Viva. Mariano conta com os olhos marejados que já quebrou pedra, cortou lenha e até teve de participar de saques na cidade.

“As mulheres agora são o esteio da casa”, conta. Os homens do assentamento Palheiros 3, onde mora, possuem poucas alternativas de trabalho e renda. Lá a maioria faz bico nas pedreiras de paralelepípedos, ganhando R$ 0,50 por dia, segundo Mariano.

O principal benefício proporcionado pelo projeto às artesãs e suas famílias é a conquista da cidadania e dignidade por meio do trabalho. Cada artesã recebe, em média, R$ 400 por mês, variando conforme a produção individual.

Soluções

Esteiras e tranças, feitas da palha da generosa palmeira, estão substituindo mantas de alumínio no revestimento de quilométricas linhas de vapor, nos campos de petróleo da Petrobras no Vale do Açu, desde final de 2003. O material artesanal solucionou problema enfrentado pela empresa, relacionado com o roubo freqüente das folhas de alumínio dos dutos para serem vendidas no mercado de sucatas.

A idéia de utilizar o conhecimento ancestral do artesanato feito da carnaúba e a habilidade das artesãs do Vale do Açu na produção de esteiras foi sugerida pelo técnico da unidade de Alto do Rodrigues da Petrobras, João Batista Dantas. “Conheço artesanato daqui desde criança. Fiz a proposta pensando em oferecer uma solução para a empresa e comunidade ao mesmo tempo”, explica.

Batista conta que procurou Gracia Ramalho e Dario Nepomuceno, um casal de militantes socioambientais atuantes no Vale do Açu, para desenvolver a idéia – eles, depois, fundaram a ONG Carnaúba Viva. “O nascimento do Carnaúba Viva aconteceu, em março de 2003, quando Batista me falou da idéia, durante o lançamento do Programa Fome Zero da Petrobras no Rio Grande Norte, no assentamento Palheiros 3”, lembra-se Gracia, coordenadora do projeto.

Em pleno evento, Gracia começou a procurar quem ainda produzia esteiras em Palheiros 3. “O produto andava desvalorizado no mercado e poucas artesãs faziam esteiras”, esclarece. Assim, descobriu Maria da Conceição Costa da Silva e Antônia Rita da Silva, duas artesãs que guardavam 130 esteiras em casa, para serem vendidas com dificuldade por R$ 1 cada. “A primeira leva foi vendida fiada”, conta rindo Antônia Rita. O pagamento veio meses depois, mas valeu a pena. Cada peça foi comprada por R$ 3,00.

Testes

As esteiras passaram por vários testes técnicos, antes de serem implantadas. Os dutos chegam a atingir 200 graus de temperatura e é por eles que trafega o vapor a ser utilizado nos poços para diluir a viscosidade do petróleo. “Levamos sete meses para desenvolver o impermeabilizante que aderisse a elas”, conta Batista. As esteiras foram padronizadas no tamanho de 1,50 m X 0,80 m. As tranças são utilizadas nas emendas das esteiras também devidamente impermeabilizadas.

A substituição das mantas de alumínio pelo produto artesanal gera economia na manutenção dos dutos entre 20% a 30% para a Petrobras, segundo o técnico e idealizador do projeto. Outras unidades da empresa na Região Nordeste estão interessadas na solução tecnológica adotada no Vale do Açu. O projeto extrapolou a fronteira potiguar e, desde o final do ano passado, um grupo de Aracati (CE), composto por 40 artesãs, também está sendo beneficiado.

Organizadas na Cooperativa Carnaúba Viva, as 400 artesãs forneceram, até o momento, 59 mil esteiras da palha da carnaúba ou cerca de 80 quilômetros do produto à Petrobras. Desde o mês passado, um terceiro produto demandado pela estatal é motivo de mais satisfação e renda para as artesãs. Trata-se da grade, feita dos talos da carnaúba, cuja função é resfriar e proteger um eventual contato humano ou animal com os quentíssimos dutos.

“No dia do artesão (19 de março) temos de homenagear a carnaúba”, pondera Conceição. Ela mora em Palheiros 3, o assentamento pioneiro do projeto, onde vivem cerca de 4,5 mil pessoas. Filhos, netos e bisnetos compartilham os resultados do trabalho e renda fixa das artesãs.

As comunidades e assentamentos rurais, onde vivem as artesãs espelham o sucesso do projeto. As ex-taperas, construídas com talos da carnaúba, folhas de flandres, entre outros materiais descartados, estão se tornando cenário de um passado difícil. A maioria das casas, agora, é construída em alvenaria. Grande parte delas ainda está sem reboco, “mas já é uma grande mudança”, segundo Gracia.

“A gente está comendo e morando melhor”, revela Maria Auxiliadora Almeida, a Dodora, uma das artesãs do Carnaúba Viva, também moradora de Palheiros 3. Além de investirem na alimentação e reforma das casas, elas também estão adquirindo eletrodomésticos.

Até o início do ano, o projeto abrangia seis municípios: Assu, Ipanguaçu, Itajá, Carnaubais, Mossoró e Upanema. “Mais duas cidades entraram: Macau e Pendência”, informa Gracia.



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